A recepção de Bocage no Brasil  
Anedotário atribuído a Bocage  
Bocage visto por alunos do Ensino Secundário  

 
 

No dia 1 de Abril de 1786, a Gazeta de Lisboa anunciava a nomeação do Guarda Marinha Bocage para a Índia.  Assim, aos 20 anos, o jovem poeta partia a bordo da Nau "Nossa Senhora da Vida", depois de receber da coroa a quantia de 84 mil réis, como nos demonstra António Gedeão, num artigo da revista Ocidente.
 
Rumou ao Brasil, onde se encontrava o futuro Governador da Índia, Francisco da Cunha e Menezes.  Da sua estada naquele país, pouco se conhece, pois não existem fontes escritas credíveis.  Sabe-se, porém, que viveu na Rua das Violas, que a sua extrema empatia se revelou exuberantemente e que conviveu com o Governador do Brasil, Luiz de Vasconcelos.  Na cidade do Rio de Janeiro, teve certamente uma vida de boémia, como era seu apanágio, amores tropicais que se podem entrever num poema seu escrito na época:


"................... onde murmura    
O plácido Janeiro, em cuja areia
Jazia entre delícias a ternura..."    

 

Em 1790, Bocage regressou definitivamente a Portugal. na sequência da sua missão agitada na índia, da sua deserção das forças armadas e das suas peregrinações por Cantão, cidade do sul da China, e por Macau.  Remonta a este ano a publicação do seu primeiro livro, uma elegia à morte de D. Jozé Thomaz de Menezes.  No ano seguinte dá à estampa o primeiro Tomo das Rimas e a sua auréola, num meio literário de pouca qualidade, consolidou-se vertiginosamente.
 
Na década de noventa, Bocage escreveu febrilmente versos lapidares, ora exteriorizando a sua emotividade torrencial ora cingindo-se aos cânones clássicos, sendo a pedra de toque o talento com que cinzelava a realidade em poemas de filigrana depurada.  Paralelamente, a sua vida de boémio incorrigível, o convívio quotidiano com os deserdados da fortuna, a insatisfação que manifestava perante o status quo, a sátira contundente aos aspectos mais negativos da sociedade - a hipocrisia, a mediocridade, a vaidade, a repressão generalizada, a corrupção e o obscurantismo -, a ironia corrosiva, a frontalidade e o seu repentismo granjearam-lhe uma ampla popularidade que rapidamente se propagou ao Brasil.
 
Na "Arcádia Lusitana", a associação de escritores da época, a sua permanência foi efémera: em breve se incompatibilizou com a paz dos cemitérios, com os chás e os bolinhos que a mão omnipotente e férrea de Pina Manique ia generosamente distribuindo, com os versos inócuos que os poetas iam debitando, com o elogio mútuo que era lugar comum.  Como corolário desta rotura, nasceram polémicas violentas: Bocage redigia poemas satíricos em que nomeava explicitamente os membros da Arcádia e estes respondiam à letra no Almanak das Musas.
 
Domingos Caldas, brasileiro famoso pelas modinhas que tangia à viola e ainda pelos seus versos, escreveu uma quadra pouco abonatória para Elmano:


"De todos diz mal    
O ímpio Manuel Maria
E se de Deus não disse
Foi porque o não conhecia"

 

Acusação gravosa esta para a época, que podia significar um processo inquisitorial.  Bocage não se fez rogado e respondeu literalmente:


 
"Dizem que o Caldas glutão   
Em Bocage aferra o dente
Ora é forte admiração
Ver um cão morder na gente!"

 

Os anos passaram ligeiros e o escritor começou a pagar a factura dos "delitos" da juventude.  A sua saúde fenecia a olhos vistos.  De 1800 a 1805, data da sua morte prematura, fez várias traduções do latim, dada a sua sólida formação clássica, e do francês, beneficiando obviamente do facto do avô e da mãe terem sido de origem francófona.
 
Em 1800, Bocage traduziu do latim dois livros da autoria de um professor brasileiro, natural da Baía, José Francisco Cardoso: Canto Heróico sobre as Façanhas dos Portugueses na Expedição de Tripoli e Elegia ao Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Ministro e Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros D. Rodrigo de Sousa Coutinho.
 
Tendo em consideração a sua extrema popularidade, os livros de Bocage foram sendo publicados simultaneamente em Portugal e no Brasil até à independência deste país, registada em 1822.
 
No dia 15 de Setembro de 1865, José Feliciano de Castilho e Noronha, irmão de António Feliciano de Castilho, residente no Brasil, durante a celebração do centenário do nascimento de Bocage, sugeriu à comunidade brasileira que se fizesse um amplo peditório para se erigir, em Setúbal, uma estátua que perpetuasse o talento e a personalidade do poeta.  Dito e feito: em breve se tinham recolhido 8.427.640 réis, quantia que foi depositada na casa Fortinho e Moniz, que, pouco depois, veio a falir. Felizmente, José Feliciano de Castilho e Noronha não tinha ainda depositado uma última verba, no valor de 1.583.000 réis, e o banco devolveu 162.000 réis.  Foram estas duas verbas que custearam a estátua inaugurada no dia 21 de Dezembro de 1871, na presença do Marquês de Ávila e Bolama tristemente célebre por ter proibido as Conferências do Casino nesse mesmo ano -, António Feliciano de Castilho e Eça de Queirós, entre outras personalidades.
 
Em 1905, o "Retiro Literário Português", sediado no Rio de Janeiro, evocou sentidamente o centenário do falecimento de Bocage, com a publicação de um livro de Luiz Murat, a leitura de poemas de homenagem ao escritor, um concerto e a representação da peça de Gervásio Lobato Condessa Heloísa.
 
No início do século, foi relevante a actividade laboriosa do escritor brasileiro Olavo Bilac que, em páginas de grande apuro formal, divulgou a personalidade multímoda e plural de Elmano.  Na sua opinião, "em Portugal, a arte de fazer versos chegou ao apogeu com Bocage e depois dele decaiu."
 
Em 1965, no âmbito das comemorações do bicentenário do nascimento do poeta, foi descerrado na cidade de Setúbal um busto de Olavo Bilac, oferecido pela Academia Brasileira de Letras.  Por sua vez, o governo português ofereceu ao Brasil um busto de Bocage, que se encontra na cidade do Rio de Janeiro.
 
Bocage está amplamente representado no panorama editorial brasileiro.  Com efeito, é possível encontrar actualmente muito mais edições bocageanas no mercado brasileiro do que no português.  Livros que contemplam as várias vertentes da sua obra: a poesia erótica, lírica, satírica e epigramática, a tradução e as anedotas que lhe são atribuídas.  De realçar ainda uma publicação da Federação Espírita Brasileira - Volta Bocage... - que dá à estampa versos alegadamente compostos pelo poeta no além mundo e transmitidos através de um médium...
 
Segundo o Professor Artur Anselmo, no nordeste brasileiro existe uma figura mitológica que se formou a partir dos nomes de Camões e de Bocage: Camonge.  Um tributo relevante àqueles que são, eventualmente, os dois poetas portugueses mais perto das raízes populares.
 
 
 

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É bem conhecido o carácter irreverente de Bocage. Com efeito, da sua pena contundente saíram sátiras impiedosas, críticas ao modelo de sociedade, ao governo, aos poderosos de uma maneira geral. O novo- riquismo, a mediocridade, as convenções sociais, o clero, os médicos, os avarentos e os literatos, entre outros, também foram objecto da sua observação rigorosa e da sua crítica corrosiva.
 
Recorde-se que a anemia e a estagnação que caracterizavam a sociedade portuguesa de finais do século XVIII eram um espartilho para uma personalidade que estava muito para além da mentalidade da época.  Co-existiam em Bocage a sensibilidade extrema, a ousadia aberta, a percepção aguda da realidade, a emotividade exuberante e o imenso talento.  Estes atributos, aliados a um repentismo fulminante e à sua permanente insatisfação relativamente aos valores dominantes e a determinados tabus, fizeram com que entrasse em rota de colisão com o poder, tendo sido preso por crime de lesa majestade e, pouco depois, entregue às malhas mutiladoras da Inquisição.  O objectivo era a sua "reeducação".  Ao fim de poucos meses, foi libertado pois o perigo de converter alguns frades aos seus ideais era cada vez mais real...
 
Poder-se-á defender a tese de que Bocage incarnou o inconsciente colectivo do povo português.  Ele consubstanciou a voz do povo oprimido mas crítico que compensava com o riso, com a caricatura e com o ridículo a sua legítima insatisfação.  A filosofia de vida de Bocage - crítico, ousado, irreverente, boémio, popular, espontâneo - propiciou- lhe uma auréola notável e consequentemente uma legião de admiradores.  Comprova-o o facto de a sua personalidade ter sido incensada em mais de cem poemas da autoria de contemporâneos que tiveram o privilégio de com ele conviver.
 
Em contraponto e como corolário da sua frontalidade, registe-se que, obviamente, não foram poucos os seus detractores que acintosamente o atacaram em sátiras e polémicas que Bocage ia também ciosa e apaixonadamente alimentando.
 
Tendo em consideração que o povo português encarou Bocage como se de filho seu se tratasse, houve a tendência natural para lhe atribuir a participação activa em ocorrências cómicas, satíricas ou brejeiras.  Dir-se-ia que o seu aval tornaria as situações mais credíveis e humorísticas.
 
Os livros de anedotas cuja autoria é atribuída a Bocage pouco terão a ver com o poeta. Pelo menos nada há escrito do seu punho de carácter anedótico.  A tradição oral encarregou-se de ir perpetuando todo este acervo, como se fosse da sua autoria.  Resta-nos apenas a filosofia subjacente a muitos destes livros, essa sim Bocageana, como muitos dos seus amigos - Pato Moniz, D. Gastão da Câmara Coutinho, Bingre, entre outros – testemunharam.
 
É bem verdade que Bocage foi a consciência crítica do povo, como já foi referido.  Mas não é menos verdade que houve editores que, para ganharem dinheiro facilmente, instrumentalizaram o seu nome, optando pelo primarismo e pela obscenidade.  Confundiram talvez conscientemente erotismo com pornografia, sensualidade com boçalidade, ironia subtil com sarcasmo.
 
O primeiro livro de anedotas atribuídas a Bocage de que há notícia remonta ao princípio do presente século e está directamente relacionado com a liberalizarão da sociedade portuguesa e com a comemoração do centenário do falecimento do escritor em 1905.  A partir desta data, inúmeras edições foram vindo a lume.
 
De extrema relevância é o facto de a auréola bocageana se ter propagado exuberantemente ao Brasil.  Com efeito, actualmente, o poeta tem mais livros à venda naquele país do que em Portugal e está amplamente representado na literatura de cordel brasileira, sendo o herói de aventuras tropicais e mirabolantes que ele não poderia ter protagonizado certamente na sua breve estada na Rua das Violas, no Rio de Janeiro, em 1786, a caminho de Goa.
 
Com o Vinte Cinco de Abril, Bocage, poeta da Liberdade e do inconformismo, foi sendo cada vez menos o protagonista do anedotário popular.  A liberdade de expressão, finalmente readquirida, deslocou o "epicentro" das anedotas para outros intervenientes do nosso quotidiano.  Com ampla vantagem para o Bocage sonetista emérito, tradutor rigoroso, sátiro impiedoso, polemista incansável e arauto de uma sociedade em sintonia com os valores mais nobres da natureza humana.

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Os trabalhos aqui apresentados foram realizados pelos alunos do 10º D, turma de Artes da Escola Secundária Sebastião da Gama, Setúbal, no âmbito da Área-Escola 1999/2000.


 


Bocage Envelhecido (Ana Filipa) Barreto

 
 
 

Praça do Bocage, Setúbal (Inês Fernando)

 
 
 

Casa onde Bocage nasceu (Ana Filipe Barreto)

 
 
 

Bocage (Inês Fernando)

 
 
 

Casa onde Bocage morreu (Ângela Pereira)

 
 
 

Igreja de Nossa Senhora das Mercês

 
 
 

Pormenor da cela de Bocage (Filipe Silva)

 
 
 

Bocage dizendo poesia anticlerical, inspirado num quadro de Fernando Santos
(Miguel Pacheco, Filipe Almeida, Linda Costa)

 
 
 

Rota Bocageana pelo Império
(Isabel Guerreiro, Cláudia Borges, Eva Cipriano, Joana Silva)

 
 
 

Desenho inspirado num quadro de Fernando Santos (Marco)